quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Tertúlias de Sábado.

Resolvemos nos encontrar aos sábados. Tertúlia capenga, pois, éramos somente o que sobrara de primeira família. Meu irmão mais novo, minha irmã igualmente mais nova e o nosso patriarca o doutor Manoel do Carmo Neves Silva. Tem oitenta e quatro anos, bem vividos. Dois casamentos e cindo filhos, na verdade era para ser seis, mas, infelizmente, um dia minha mãe, ao escorregar em uma pedra, dessas que compõe o cenário de praia, perdeu o equilíbrio e também o seu neném de seis meses de vida intra-uterina.
É um encontro muito bom. Permite-se falar de tudo, desde nossos medos e apreensões até vitórias no dia a dia. Não apenas vitórias, mas, suas conseqüências nas nossas vidas. Os quatro componentes ressentem a falta de dois. Um totalmente possível de freqüência, meu irmão mais velho, o Tony, que mora em São Paulo, mas, quando disponível se faz presente nas reuniões e de nossa mãe, essa não pode participar por não estar mais entre nós, o que é uma pena, pois, sei que se alegraria demais com essas reuniões.
Os membros permanentes são quatro, mas, éramos seis. A vida, é claro, se tornou capenga sem a nossa maior preciosidade, nossa mãe, nosso bem maior, que sempre, em todos os momentos, bons ou ruins estava conosco, nos orientando e nos mostrando a direção correta a seguir. A reunião seria de outro tom, com outra tonalidade. Tentamos nos superar na presença ímpar de nosso pai. Presença totalmente venerada naquele momento por todos nós, o que nos dá uma espécie de sublimação, superação de todos os problemas físicos e psicológicos. Ele representa muito bem a ela e supre totalmente essa falta.
Os assuntos são os mais diversos possíveis. Literatura, como nos nossos primeiros anos, quando nossa mãe nos embalava ao som de poesias de Casemiro de Abreu, Castro Alves, histórias de crianças, das mais variadas matizes, como a do Chapeuzinho Vermelho, A baleia assassina, O macaco e a velha, A bela adormecida etc...; também das histórias dos livros colocados nas prateleiras das estantes por nosso pai, coleções importantes como os Titãs, a Barsa, O Tesouro da Juventude, Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado e tantos outros que fizeram a base de nossa literatura e nosso gosto pela leitura e o escrever também. Todo passado vem à tona nessas tertúlias. As puerícias, a adolescência de cada um, seus namoros, seus sonhos, suas diversões preferidas são logo desvendadas, revividas pelo carinho dos oitenta e quatro anos de nosso pai. O Tony, quando está, e, quando não, por telefone, Eu, Manoel Filho e Necil, ficamos ali a nos deliciarmos com a beleza do momento desse encontro sui generis, ouvindo a beleza de vida, que brota espontaneamente do coração de nosso pai.
Todos os momentos e peripécias de meninos e de menina são e foram revividos ali na mesa do café, no caso o Fran’s Café, ou o Le Café, ou o Café do Ponto, todos muito bons cafés, sendo o de minha preferência o Café do Ponto, porque, tem sabor mais gostoso do café que se sobressai ao aconchego do Le Café, do shopping Manauara. O prazer de tomar ou degustar um bom café só é ultrapassado pelo da conversa com nosso pai e líder. A oração é que consigamos ainda que por um momento continuarmos a ter essa oportunidade de conversa íntima com quem mais amamos na vida, nossa família, que está ficando capenga, sem alguns membros, cotó, perneta, mas, ainda operacional, e, mesmo assim, enquanto a luz não apaga a continuidade, o nosso aconchego é a maior conversa: a vida.

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