Nasci em 1952. Bom ano para nascer, pois, o mundo se refazia da última grande guerra e se preparava para entrar numa era de muitas e rápidas mudanças, mas, como recém nato não podia nem tinha consciência disso, quero dizer, das mudanças político-sociais no mundo e do mundo, que acabaram por comprometer e mudar as bases familiares, a vida social, a moda, na sua complexidade, desde vestes até o modo de pentear os cabelos, o agir rebelde, pondo em cheque os ensinamentos e vivências dos mais velhos. O negócio é o seguinte: Os pais, homens, chegavam em casa bêbados e briguentos, frustrados por pertencerem a uma classe, a média, que apesar de propiciar alguma modernidade e aparência, não conseguia preencher os desejos totais de consumo que comandava a vida dos pais nessa época, então, eles descontavam suas frustrações em suas mulheres e filhos. Batiam nas esposas, nos filhos, sem a finalidade de correção, só para mostrar a si próprios que lá quem mandava não era o barrigudo, encrenqueiro e chato chefe da sua empresa, mas, ele, ele mesmo era o chefe e supremo comandante de soldados totalmente desgastados pela falta de moral dos seus superiores, que, obedeciam a seguinte norma: Faças o que eu digo, mas, não faças o que eu faço. As crianças, jovens e adultos, cresceram vendo e ouvindo todo tipo de ameaças às mães, e, então desazos diante de tal situação. O resultado foi o desenrolar de, igual uma bola de neve rolando, um total anseio de modificação do quadro. Para que casar? Para que ter filhos? Para que ser isso ou aquilo se tudo estava, às claras, desmoronando e ficando insuportavelmente deprimente.
Este é o pano de fundo de meu primeiro contato com o mundo. Tudo passando por uma transformação geral, transformação essa pressionada pela válvula de escape da panela de pressão social, a rebeldia. Vamos fazer o contrário do que as gerações passadas fizeram para ver como fica e também para ensinar-lhes que todo conhecimento e todo acúmulo de emoções passam pela burocracia das regras e das antipáticas leis, éticas não vividas por aquela geração em seu fim, pensava a emergente geração, da qual eu faria parte; o que produzia a maior e pior de todas as vendas de imagem: a hipocrisia.
A geração paz e amor; faça amor e não guerra; faça amor e não criança espelhava os novos pensamentos dos rebeldes. Flor no lugar de canhão, de murros, de gritos, de desespero, de falta de amor ao próximo, se tornou jargão cuja veleidade era somente demonstrar que era possível uma revolução mundial sem as farpas e sem as marcas diabólicas da guerra, cuja expressão maior era as crianças de Hiroshima e Nagasaqui, cujas puerícias dolorosas mancharam a história para sempre. O fulvo resplendor das bombas, e, depois suas cinzas fumaças ficaram nas lembranças da geração seguinte a aquela, e, mesmo assim, com toda reflexão a guerra do Vietnã foi feita e sofrida por jovens americanos que sequer entendiam a natureza daquilo tudo e que repeliam e repeliram nas pessoas de Elvis Presley, o cantor e Ali,o boxeador.
Sestros, é verdade, ficaram e se tornaram consubstanciados pelo tempo, como indestrutíveis. O maior exemplo é a interdependência dos laços familiares. Novas roupagens de relacionamentos foram firmadas e colocadas em prática, mas, não surtiram respostas aos anseios, por mudança, da nova geração. As amizades coloridas, o sexo, e, a devoção corporal, com seu culto ao corpo, forçou a descoberta de novos caminhos e rotas onde a tônica era a sinceridade da relação, a fidelidade, e, a entrada da mulher no mercado de trabalho, mudando, parcialmente, o conceito da mãe e mulher como trabalhadora do lar. Agora elas eram executivas, legisladoras, e, trabalhadoras conscientes de que o dever para com elas mesmas resultaria em uma auto-estima maior e mais prazerosa, e, ao mesmo tempo que suas novas ações criavam uma nova forma de educação, com sua saída de casa para o trabalho, de seus filhos que ficavam com babás ou começavam a usar as creches, empresas emergentes que tentavam preencheram essa necessidade e que acabaram por melhorar muito até chegar tempos atuais.
A fácies das famílias mudou bastante, mas, continua com o formato da mesmice. Aqui no Brasil a prova disto é representada em uma música de Belchior, um cantor cearense:
“... o que mais dói é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos,
ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais..”
1952 ano bom para nascer. 60’s anos bons para aprender e curtir. 70’s aprendendo sempre. 80’s entrada no mercado de trabalho. 90’s boas viagens e aprendendo sempre. 2000 novo século, nova visão. 2009 ano de continuidade.
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