Era uma casa bem adiantada, moderna, para seu tempo. Fora construída no alto da colina, de maneira que quem chegasse, pelo caminho de barro, envolto por copas de árvores que se fechavam acima da estradinha, logo a via, com seu desenho bem moderno, tipo uma dessas casas dos anos 50, e, com uma enorme garagem na parte mais baixa, aonde o terreno começava a baixar. Tinha uma escada larga por dentro da garagem que levava para dentro da casa, da escada saía-se na sala de estar, com seus três ambientes, todos decorados com o mais moderno da época, vitrolas, TVs, sofá imenso de couro puro, tapetes importados, felpudos e gostosos de si andar neles, e, a pintura das paredes claras, a dar um tom de alegria e de bem estar. Nesta sala tinha-se a opção de entrar-se tanto pela garagem quanto pela porta da frente, uma toda de vidro, quase do tamanho da parede que a abrigava. A parte íntima escondida por um corredor que levava aos quartos, todos suítes, eram quatro ao todo. Na suíte máster um banheiro muito grande, acho que era tipo uma sala de banho com banheira, um espelho enorme tomando toda parede posterior, e, um brilho tanto nos azulejos das paredes quanto no resto da decoração. A cozinha ficava do lado esquerdo de quem se dirigia à parte íntima da casa. A porta, de madeira maciça, dava um ar pesado neste canto da sala, mas, depois de aberta, o imenso espaço da cozinha era desvelado. A entrada e saída de serviço desembocava em uma longa varanda que terminava em um jardim na lateral da casa, onde era comum ver-se e ouvir-se os pássaros cantando e brincando. O telhado era tipo em ^ mais aberto e tomava todo trajeto da casa, em sua maior dimensão. Esta era a casa que, quando criança freqüentávamos aos finais de semana, o Zivan, uma mistura sintética do nome do filho mais novo de meu tio, irmão de mãe e dono do terreno. Ali, nesta casa, junto com toda nossa família passamos boa parte de nossa vida, correndo e brincando no espaço íngreme, que terminava, lá embaixo, no igarapé, de águas límpidas e geladas.
Perto do igarapé, os buritizeiros, em abundância, balançavam ao vento, na nossa chegada, como que nos cumprimentando, dizendo de sua alegria de não terem sido molestados, por nós os intrusos naquele mundo mágico, tão natural. Depois do igarapé a terra subia novamente formando outro monte que para nós pequenos era de um mistério curioso. Ficávamos, às vezes, sentados na varanda, depois de tomados banho e comendo o lanche da tarde, imaginando o que existiria para lá depois daquela montanha, desconhecida, ainda virgem, com suas grandes árvores, que escureciam seu interior e funcionavam como freio para que fossemos desbravá-la, pois, a gurizada tinha um sentimento respeitoso em relação a quietude da floresta e das histórias de onças e outros animais que os mais velhos, sabiamente contavam.
Ao lado dos buritizeiros fizeram, um dia, um campinho de futebol. Na verdade a intenção fora ser um de voleibol, intenção essa distorcida, e, transformada em futebol. Eram dias felizes e prazerosos, inda não tínhamos a responsabilidade pesada do sustento próprio e uma família à crescer.
Ali, naquela pequena visão do Éden, entendi a grandeza de Deus, em sua criação, e, como o homem perdera ao sair do Éden. Essa nesga de visão me conforta até hoje; saber que um dia estarei de novo ali naquela paz, naquele convívio gostoso, saboreando o que a terra pode dá, desde o buriti, açaí, cajú, laranja, banana, sapoti, manga, até o cheiro da terra molhada, pós chuva, a correnteza das águas do riacho, fazendo aquele barulhinho gostoso de se ouvir, quando se está deitado em uma rede, balançando, como se o mundo fosse só aquilo e só existisse aquele momento. Um dia será.
Maranata, Senhor.
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