quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Oportunidades.

Faz uns dois anos que fui submetido a uma cirurgia de vesícula precipitada por uma noite inteira de vômitos e dores. Lembro a gota d’água que desencadeara tais sinais e sintomas. Acabara de chegar de uma aula de tênis de quadra, com meu professor, o Kleber, e, ao passar pela cozinha vira sobre a mesa da cozinha um apetitoso pão recheado de calabresas, pão de meio quilo, o que me reportou imediatamente à minha adolescência, onde minha mãe fazia pães muito gostosos, muito saborosos que este, certamente também recheados de calabrezas. O fato é que quando minha vista encheu-se com o pão, eu sabia que iria comê-lo. Foi o que fiz, logicamente acompanhado por uma geladíssima coca-cola. Lá, por volta das duas da madrugada, começou meu angustiado sofrimento, que, só terminou mais tarde, na outra semana, em cima de uma mesa operatória. A cirurgia foi realizada, sendo eu o último paciente do dia de trabalho do cirurgião e quando acordei, por volta das quatro da manhã, resolvi que deveria tomar um gostoso banho e assim fiz para esperar o doutor vir para minha alta, apesar dos protestos de minha esposa.

- Alexandre, disse o doutor, tenho que lhe relatar algo sobre sua cirurgia. Não fique preocupado, é que, quando da retirada da sua vesícula, houve rompimento de suas paredes, com a conseqüente queda para dentro da cavidade abdominal de pedras, sucos e sumos, aquela lama, de dentro da vesícula, mas, fiz a lavagem, secagem, aspiração e realmente não ficou resquício de nada dentro de você. Assim, vou lhe dar alta e você vai tomar estes antibióticos de última geração e nada vai acontecer a você.

Imediatamente me vi morrendo, com muitas dores, gritando por alívio, querendo continuar vivo, desespero total. Não morri. Quinze dias depois da cirurgia, em casa, enjoado pelo ócio, resolvi ir a meu consultório atender um paciente, árabe, que iria começar um tratamento. Entrei devagar e ele, já na cadeira, me perguntou:

- O que é isto, doutor?

Aí contei para ele a minha odisséia cirúrgica. O rompimento da vesícula, meu pós-operatório, minha dieta, meus medos e quando terminei de relatar tudo e já me propunha a começar o tratamento ele me disse:

- Doutor, que coisa mais chata. Puxa, mas, é igual a de um amigo meu lá da terra. Ele fez a mesma cirurgia, houve o rompimento da vesícula e toda recomendação médica igual à sua e ele morreu seis meses depois.

Olhei espantado para ele sem entender direito a mensagem, mas, me refiz do susto e procurei ficar calado enquanto começava a tratá-lo.

Puxa, fiquei pensando o sujeito fez a mesma cirurgia, tudo igual a minha e o homem morreu seis meses depois, caramba, acho que isto é um aviso dos céus, posso morrer sim. Calma, pensei, ainda não morri, então, as pessoas são diferentes e reagem diferentemente aos mesmos estímulos. Talvez o homem de lá tenha morrido por falta de cuidado pessoal, como a dieta, os curativos, o não tomar remédios na hora certa, o remédio certo, enfim, muita coisa pode ter contribuído para a morte desse senhor, e, eu tenho uma força muito grande que se chama Deus, o mesmo de Abraão, de Isaque e de Jacó, nossos patriarcas, nossos ícones de fé, de esperança, sim, Deus, ainda, não permitiu minha ida para perto D’Ele.

Os seis meses passaram e cá estou eu descrevendo o passado. Vendo os netos crescerem, enquanto é dia e a noite não vem, quando então, todos nós dormiremos.

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