Estava sentado à mesa, pronto para almoçar, quando a empregada, nossa cozinheira, disse-me:
- O senhor está aí. Pensei que estivesse no carro, saindo...
Mal ela terminou a frase, pulei do lugar onde estava e correndo me enderecei para a porta principal da casa onde morava. Era uma casa grande, dessa que os antigos gostavam de fazer com seus vastos aposentos e varandas e com, sempre, um enorme quintal ladeando e indo até o final traseiro da casa, um muro alto que dava a impressão de ter sido feito para não ser nunca pulado ou invadido. No meio da parte traseira e mais para a esquerda de quem a olhasse de frente a velha mangueira, toda cheia de frutos, por ser época de colheita, comandava a visão, frondosa e esbanjando saúde. Em sentido contrário se percorria o quintal para a entrada da casa, em sua lateral, e, foi para lá que corri com todas as minhas forças na esperança de ainda achar na calçada em frente à garagem o meu carro que comprara cerca de mês e meio atrás. Era um Fiat Uno 1.5, do ano. Um carro muito veloz, ideal para ladrões que acostumados com a safadeza de roubo, quisessem sair do local do crime o mais rápido possível. Realmente, o ladrão, o mesmo do roubo da primeira vez, levara o carro. Ainda o vi, dobrando a esquina, fugindo, quem sabe para onde e para sempre, pensei...
A primeira vez fora incrível. Era dia das crianças do bom ano de 1986. Os meninos, meus filhos, estavam em festa. Prometera a todos que naquele dia iríamos às compras. Claro que de brinquedos, até mesmo pelo dia. Estacionei o carro em um estacionamento em um local onde hoje é o prédio Rio Negro Center. O guardador responsável era o Rui. Um caboclo próprio de nossa região. Entreguei a chave a ele e fui às compras, com os meninos. A euforia estava no ar. Seguimos descendo a Avenida Eduardo Ribeiro e fomos a algumas lojas de brinquedos e depois de comprados retornamos ao estacionamento para o carro. Triste ilusão. O Rui entregara a chave do carro a um homem que dissera a ele que eu mandara buscar o carro. O carro desaparecera, e, eu fiquei ali com os meninos sem saber exatamente o que fazer. Fomos, então, a uma delegacia e fiz um boletim de ocorrência relatando tudo que eu tinha ouvido e visto. Desolado, voltei para minha casa e comecei a pensar no que uma pessoa faria com um carro novo se não fosse assaltar postos de gasolina, ou quaisquer outros lugares de lucro fácil e fácil saída. No dia seguinte, em um jeep antigo, pertencente a um dos meus cunhados, comecei uma busca, indo nos lugares de desmanche de carros, porque, aprendera que nesses lugares eles desmancham os carros e vendem as peças no varejo, de maneira que o carro roubado se desfaz em inúmeras peças, dificultando em muito o resgate. No terceiro dia de procura, já voltando para casa com um enorme desânimo, em frente ao Estádio Vivaldo Frota, onde antes era uma loja chamada Americana, que possuía um estacionamento na parte inferior à loja, tive uma espécie de visão e disse à minha esposa:
- Se eu tivesse roubado um carro e quisesse abandoná-lo, deixaria a ele aí nesse estacionamento que é escondido.
A idéia me pareceu tão ridícula, pois sabia que não iria encontrá-lo por lá. Depois de alguma insistência de minha esposa resolvi entrar no estacionamento e lá estava o carro. Depois de comunicar à polícia que achara o carro, levei-o para casa e usei-o até uma semana depois quando aconteceu o segundo roubo, este que relatei por primeiro, e, eu pensei que tivesse perdido o tal carro. Não sei o que tinham escondido nesse carro, mas, sei que era algo muito precioso, pois, depois que o achei pela segunda vez, vendi-o a uma locadora que por sua vez vendeu-o a outro cliente e este querendo fazer surpresa para a esposa levou-o para casa, estacionou em frente a sua casa e entrou para chamá-la para vê-lo e quando retornou o carro não estava mais lá. Incrível. Era o lugar mais vazio que se pode imaginar.
Tem momentos, que mesmo na rotina que a vida nos oferece, são difíceis, precisam de muita paciência, e, fogem ao nosso controle. Ainda bem que Deus nos permite retomar a rédea, o timão para a recondução de nossos caminhos em direção à nossa felicidade.
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