terça-feira, 4 de agosto de 2009

A bosta da pata e a gripe do velho.

Como acontece todos os dias quando estou aqui em Boa Vista fui por volta das onze horas e meia, da manhã, buscar os meus netos no colégio. É claro que alguns me têm como irresponsável por tal atitude já que larguei praticamente meu consultório para me dedicar integralmente, as vinte e quatro horas do dia durante uma semana, a tomar conta deles, e, é isso que fui fazer exatamente no horário proposto.

Cheguei à frente do enorme portão da entrada do colégio e me deparei com o Sr. João, um arigó, cearense, chegado à Boa Vista uns anos atrás e cheio de vitalidade se instalara nesta prodigiosa terra. Roraima é um estado muito ao norte do país, e, faz fronteira com a Venezuela, Guiana Inglesa, agora independente e com nosso estado, cuja linha fronteiriça está dentro da reserva indígena, cerca de 220 km da última cidade roraimense, Jundiá. A terra é pródiga e boa para o plantio de bananas, e, também para o gado. É bonito de se ver os campos imensos, retilíneos, onde o horizonte encontra a terra, na planície das savanas, que parece que a terra fora plainada tão certinho, que parece ser de brinquedo, de tão aparada que são seus campos. Seu João veio atrás dessa tranqüilidade que a paisagem desperta no navegante. Acabou por se fixar na cidade de Boa Vista, teve filhos e filhas e conseguiu na velhice este emprego de porteiro da escola. Tem um humor inteligente e bom de se compartilhar, pois, sua criatividade nos ensina a todo instante coisas da vida, por isso, é sempre rodeado por jovens que lá estudam e sempre querem ouvi-lo falar alguma coisa.

Como dizia, cheguei no horário para buscar os meninos, meus netos. Ele que determina, por seu relógio, a hora certa de apertar o botão que encerra as atividades escolares do dia. Hoje estava pensativo, com ares de cansaço e foi logo dizendo:

- Ainda faltam uns vinte a vinte e cinco minutos... é, ainda falta..

- E aí, “Seu” João, como está?

- Estou mais mole que bosta de pata, meu filho. Essa gripe é fogo. Todos nois tem tudo que é doença, mas, essa gripe ta muito forte nois e ainda passa para os meninos.

Quase morri de rir com a comparação de sua moleza, mas, entendi. Ele estava em exaustão, com os músculos doloridos e às vezes doendo mesmo. A diretoria da escola tinha que ser mais maleável, ele estava com muita gripe, apavorado de ter contraído a gripe suína, tinha que ter sido liberado do trabalho. Os olhos vermelhos, sinal de cansaço extremo e o corpo mole como bosta de pata.

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