segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O cego.

O carro desenvolvia uma média velocidade. As sarjetas recém pintadas de branco passavam rapidamente pela visão lateral e o motorista atento, atentou para um carro parado no meio da outra quadra a frente. O carro estava parado embaixo de uma árvore e de longe só se via seu vulto, mas, o que chamara a atenção do motorista fora o vulto de uma pessoa do lado de fora, curvado, e, com uma mão gesticulava como chamando atenção de alguém que estaria dentro do carro. Na outra mão parecia que a pessoa segurava alguma arma, não distinguível, mas, com certeza segurava algo. A adrenalina começara a percorrer seu corpo e seus efeitos manifestaram-se. O suor frio, agora escorria livremente por suas costas molhando sua camisa. O instinto de sobrevivência avisava que algo de errado estava acontecendo ali, e, que toda atenção era necessária. O carro agora estava mais ou menos a vinte metros e nitidamente ele viu o revólver na mão do homem que parecia agora gritar a pleno pulmões. O carro emparelhara com o do acostamento e ele olhara para ver o que realmente estava acontecendo. Uma mulher, encolhida ao fundo do carro cobria seu rosto com as mãos, mas, ao mesmo tempo, com os dedos afastados, mostrando parte de seus olhos, esbugalhados, como que gritando por socorro, tentava desesperadamente se fazer endenter pelos passantes.
- Tudo bem, aí? Perguntara o motorista olhando para o homem armado.
- Sai fora, rapaz, dissera o homem se voltando inteiro para o carro do motorista. Ao virar- se o homem puxara o gatilho. O estampido assustara o motorista que abaixara a cabeça tentando se defender. Inútil, essa tentativa. A bala entrara na maxila superior esquerda e perdendo a força não conseguira sair e se instalara muito perto do sistema ótico e por sua proximidade provocara uma espécie de cegueira, e, o motorista tentava desesperadamente ver, olhar e ver a imagem, mas, só uma enorme sombra pairava em sua visão. Desmaiou. A noite caíra totalmente e a escuridão naquele local era quase palpável. Recobrou a consciência no hospital. A princípio tentara retomar a visão do último cenário que vira. A memória, boa, fez-lhe emegir imagens, sons, e, como não conseguia enxergar nada, a consciência, lúcida, começara a cobrar a exata expressão de ver, sem obter nenhuma resposta e só então percebeu que estava cego. Desespêro. Gemeu baixinho.
- Estou aqui, filhinho. Era sua esposa, Sandra. Está tudo bem, querido. Graças a Deus, você está vivo. É um milagre.
- O que aconteceu, Sandra? Está doendo muito. Disse isso e levou essa mão ao rosto. O ouvir a voz dela acalmara mais um pouco. Estava muito assustado.
- Calma, querido. Procure não se mexer. Fique calmo.
O rosto da mulher, naquela expressão, a última visão que tivera, estava fixada em sua mente e agora mesmo aparecia como um filme em sua consciência.
- Será que vou voltar a enxergar? Perguntara ele em sua dor...
Dois anos depois o motorista após um lento e doloroso aprendizado, embora e apesar de sua cegueira começara, com a ajuda de sua esposa, a construir o que mais tarde seria uma rede restaurantes. Resolvera "esquecer" os acontecimentos e se dedicar a alguma tarefa e assim fizera, e, logo no primeiro ano sentira que entrara e estava trabalhando na profissão correta. Ele podia se comunicar com as pessoas, sentir-lhes o astral e suas condições só tocando-lhes as mãos. Sua esposa derá-lhe um filho maravilhoso e saudável, enfim, olhando para trás, podia dizer que era um ser humano feliz, talvez mais do que tivesse a visão perfeita.

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