terça-feira, 23 de novembro de 2010

Dia de Chuva.

Dia de  chuva. Os pingos caem lentamente, monotonamente, atrasando relógios, quase parando o tempo. O vaivém das pessoas praticamente parado torna a paisagem, daqui de onde estou a observar a paisagem, mais enfadonha, pois, a falta de movimento a critaliza mais ainda.
Do outro lado da rua um cachorro, ensopado, encharcado d'água passa cabisbaixo, à êrmo. O lavador de carros sentado abaixo de uma marquize cochila descaradamente, pois, não tem o que fazer, ninguém mandaria lavar seu carro na chuva. Em uma árvore perto dali, quase em frente, aves descansam e não piam nem arrulam, contraem seus corpinhos, lado a lado, numa comunhão fantástica. Os pingos aumentam de tamanho e tornam a visão quase nula mesmo numa distância como essa tão pequena.
Pensamentos nostálgicos ocupam rapidamente a minha mente. Viagens de barco no grande rio Negro ou mesmo no Amazonas, passam velozmente ante meus olhos, enormes ondas d'água a balançar o barco como se fosse nada,  carro no asfalto molhado com a visão diminuida tanto pelo vidro molhado quanto a intensidade da chuva, o foco da visão prejudicado pela pouca visão, o chão da fazenda molhado com o estêrco cheirando e exalando seu odor característico, um grito, uma queda, um choro de neném nascendo, o cheiro gostoso do café no fogão, o gosto da bolacha Maria, da água do rio Amazonas depois de filtrado, coado e fervido, o latido solitário do cachorro chamando e clamando por companhia, a correnteza do rio, veloz, levando no bojo tudo que pôde arrematar dos beiradões, o cheiro de terra molhada, das flores do enorme pomar, o peixe fisgado lutando para se soltar do anzol, o gosto do peixe assando na folha de bananeira, o do ensopado de peixe, o do vinho de buriti, o do açaí, o gosto gorduroso do tucumã, da pupunha quente comida com manteiga e acompanhada com café preto passado na hora, da tapioca derretendo manteiga, o sorriso de minha mãe provando o bolo de macacheira, a chegada de um ente querido, o nascimento de filho, a morte de um parente, o sonho realizado ou mesmo frustrado, goiabada com queijo, a manteiga da fazenda, a igrejinha, os conhecidos, os amados choros madrigais dos filhotes, enfim, a chuva nos traz a nostalgia ou a firme vontade de continuar vivendo. 

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