A construção do shopping lembrava um enorme navio. Os compridos passadiços possuíam de um lado lojas e do outro, direcionado para o centro um vão, de maneira que cada andar via o de baixo. Apesar da hora, ainda era muito cedo, muita gente circulava por entre as diversas lojas.
De repente, um grito alucinante, de mulher. Um grito de dor. Um grito para ser ouvido, pois, apesar de retornar dor, era um grito de pedido de socorro. Logo uma pequena multidão se pusera ante a porta de entrada da loja de onde vinha os gritos. Era um salão de beleza. Os rapazes do salão não sabiam o que fazer, perturbados pelos gritos incisivos e agudos. O homem agarrara a vítima pelos cabelos e agora mesmo puxava sua cabeça para baixo e ao mesmo tempo socava-a no rosto, numa tentativa de deixar sua marca como uma punição.
- Vadia, vadia, vou te matar..., gritava o homem, fora de si.
- Largue a moça, comandou a voz grossa e alta do guarda do shopping.
Alguns dos funcionários do salão gritavam ao mesmo tempo tentando explicar o ocorrido. Uns diziam que o homem entrara ali e queria matar a moça, outros bradavam que era um problema de dívida que o sujeito viera, por fim, resolver, outros que era um assalto. O fato é que a mulher quase sem voz, agora, ainda emitia grunhidos estranhos, incompreensíveis. Alguém ligara para a polícia.
- Socorro, é da polícia? Tem um homem querendo matar uma mulher aqui no shopping. Socorro...
Finalmente o homenzinho largara os cabelos da mulher e desconfiado, com vergonha, olhava os rostos de todas aquelas pessoas, que olhavam para ele com ares de pouca amizade, talvez, olhando melhor estivessem pensando num modo de liquidá-lo, e, este último pensamento fez com que a adrenalina corresse mais rápido por seu corpo, paralisando-o. Ele levantara as mãos pedindo calma ao guarda que o segurava por trás e apertava-lhe o pescoço numa espécie de gravata.
O consenso dos lojistas não permitia tal violência dentro de seus limites. Aquele fato poderia afastar clientela e a falta de clientela geraria um colapso financeiro total. Não, o fato teria que ser reprimido com rigor para para servir de exemplo para outros. Não poderia ter repetição. O superintendente do shopping autorizara a entrada da polícia de choque pela passagem dos clientes, o que chamaria mais atenção da clientela, daquele lado do shopping, que tudo fazia para acompanhar o fato. O aglomerado afastara para a entrada daqueles homens armados até os dentes para efetuarem a prisão do covarde, do mau elemento, que desarmado não entendia direito aonde ele se metera, pois, seu plano era dar um susto em sua ex-mulher, mas, como era óbvio perdera a cabeça.
- O que aconteceu? Perguntava o sargento, comandante de seis soldados, sendo um deles cabo, ao guarda do shopping.
- Este cidadão atacou, e, surrou esta mulher e fez ameaça de morte a ela.
- O senhor está preso. Queira nos acompanhar até a delegacia, por favor, dissera o sargento querendo parecer educado para a pequena multidão de curiosos.
Um dos soldados segurou com bastante força um dos braços do rapaz que olhava para a mulher na esperança de que ela ajudasse-o, mas, o que conseguira fora um olhar de desprezo como se dissesse: agora tu me pagas o novo e o velho... e, então, ele sentiu o peso da enorme solidão que tomava conta do seu ser. Sou bom cidadão, bom pai e filho, trabalhador, o que estou fazendo?
Sentiu, no outro braço o aperto que um outro soldado lhe dava em seu outro braço e um leve empurrão na direção da porta de serviço, uma porta no fundo da loja que servia de entrada tanto para os empregados quanto mercadorias e era no fundo para os clientes não verem esse tipo de movimento, por isso, ninguém viu o tapa violento que o acertara por trás da cabeça e que o fizera ficar tonto, pois, a adrenalina corria com mais força por todo o seu corpo, e, então, teve medo por sua vida. Nunca mais faço isso, mamãe do céu...
O movimento do shopping voltara ao normal. As senhoras e senhores recomeçaram a andar em busca de suas compras. Um ou outro ainda falava sobre o ocorrido, mas, logo tudo estava normal como se nada tivesse acontecido. Dez minutos depois todos não lembravam de mais nada.
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