quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Louco, hoje pedirão tua alma...

A vida é breve.
Não havia nada certo, tudo estava dando errado. Ele pensara no quanto tinha trabalhado para alcançar um bom descanso na velhice, em sua aposentadoria. O tempo passara e agora aposentado, com boa prebenda, podendo praticamente fazer o que quisesse, como viajar com sua esposa, com seus netos, e, mesmo em grupos de amigos, aparecera essa doença para invalidar quaisquer planejamentos. Era uma doença silenciosa, dessas que matam a gente devagar, pensara ele, naquela manhã. Tomara uma boa ducha, sentara à mesa para o café da manhã e a voz metálica do médico repetindo sistematicamente a mesma promessa de morte iminente, talvez uns poucos meses. Deveria se apegar com Deus, dissera ele. Deus? Aonde pode estar Deus? Agora que eu poderia viver um pouco mais, longe das chateações do trabalho, fator de muito estresse, e, também dos engarrafamentos, da hora marcada, da obrigação de ser organizado, me aparece este maldito tumor e em uma região tão sensível a ponto de se espalhar tão rapidamente pelo corpo, que alias o médico não sabe se já está ou não e aonde. Oh! Meu Deus...
Amanhã em vez de estarmos no Caribe, não vamos por conta desse tratamento com químicos e a tal de radioterapia. Caramba, pensara ele, será que isto é verdade? Tenho quase certeza que este médico errou o diagnóstico, pois, sempre fui muito saudável, nunca tive ou apanhei quaisquer doenças, nem mesmo dor de cabeça, meus exames, quando os fazia, eram impecavelmente dentro dos limites normais; esse médico errara o diagnóstico, com certeza. Vou procurar outro médico. O rosto do médico insistia em ficar defronte a ele. Um leve sorriso, sarcástico, e, a voz metálica. O cara está completamente louco, pensara ele. Não faça isso, agora gritava ele, pois, o endiabrado do médico empunhava um bisturi pronto para extirpar o tal tumor. Pare, pare...
Acordou olhando para os lados e em todas as direções tentando se situar. Até que entendeu que tudo fora realmente um sonho mau. Um pesadelo. Graças a Deus, que nunca me abandonou, pensara num lampejo de felicidade por tudo não passar de especulação do mundo dos sonhos. Olhou para sua mulher, a seu lado, na cama, pensando o quanto poderia ter dado mais conforto, mais vida para ela, qualquer dia desses eu faço e levantou-se. O dia estava claro, com o sol buscando entrar no quarto por uma brecha deixada pela persiana. Espreguiçou-se e pensando em quanto sua loja venderia hoje, sentou-se no vaso do banheiro. Quando estava terminando e praticamente levantando-se, uma súbita dor no peito, achatando e comprimindo-o cada vez mais, o fez ficar tonto, e uma forte luz cobriu seus olhos, e, então a dor infinita, infinda, terrível tomou conta de seu peito e dele, prostrando-o. Caiu morto ali mesmo.
" Louco hoje pedirão tua alma e o que tens guardado para quem será? "

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