A chuva torrencial caía com toda a sua força. O carro andava lentamente, partícipe de uma enorme fila. Pareceu a mim que o ocupante do carro da frente estava realmente apressado. Tentara ultrapassar o da frente pela direita quase causando um acidente. Náo tinha o que fazer senão ligar o rádio e na medida do possível relaxar.
" Olho para a chuva que não quer parar
Nela vejo meu amor
essa chuva ingrata que não quer parar
prá aliviar a minha dor,
Chuva traz o meu benzinho, pois, preciso de carinho,
Diga a ela prá não me deixar triste assim. "
Era uma música antiga, cantada por Demetrius, um cantor da década de sessenta ou setenta. Me vi, então, viajando no tempo e apressadamente tentando chegar o mais rápido na casa de minha namorada, lá na Cachoeirinha, no auge de meus dezesseis anos, ofegante e afoito. Descera do ônibus o mais próximo possível, parara numa marquise de uma padaria e estivera esperando um amainamento do toró. Lá dentro da padaria ouvia-se Demetrius cantando essa mesma música. Entrei, pedi um pão com manteiga e um refrigerante, guaraná Luzéia, e, enquanto me aquecia por ali, depressivamente, interpretava a música. A chuva não vai parar prá aliviar esta dor de querer ter a namorada perto para poder abraçá-la, aquecê-la com afagos. Que droga de chuva.
Oh! Chuva traz o meu amor...
Me deixa chegar lá, era o grito do peito, mas, quanto mais eu me angustiava mais chuva caía engrossando ainda mais a torrente de água. Terminara o lanche e me escorara no umbral da porta. Depois de uma hora estava com o coração a mandar enfrentar o lençol de água no qual se transformara a rua. Impulsivamente corri para a corrente de água e desatei a correr na direção da rua da casa da garota. Cheguei em frente ao portão, arrodeado de sabambaias, e, outras flores, que formavam um corredor até a porta principal da casa. Empurrei com força o portão, mas, ele estava trancado à chave. Ali encharcado e tremendo de frio, demorei a compreender que não havia ninguém em casa. A família inteira tinha saído. Se tivesse chegado uma hora atrás tinha-os acompanhado.
Como voltar e pegar um ônibus todo molhado, molhado até a alma? Resolvi andar e andei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário