Estávamos acostumados a orar, agradecer a Deus na hora da mesa, em quaisquer das incurções alimentares da família. Meu Pai à cabeceira da mesa ordenava quem houvera escolhido para o agradecimento. Pedíamos aos céus que a escolha nunca sobrecaisse em minha avó paterna, pois, sempre as orações eram um pouco mais longas que as outras, e, a fome fazia nossos estomagos gemerem uma espécie de ronco durante a oração o que ocasionava uma ligeira risadagem nas crianças. Claro, que se o risonho estivesse ao alcance de minha mãe ou de alguém mais velho, logo a resposta seria, de pronto, pelo menos um beliscão, para que o menino aprendesse o devido respeito às coisas sagradas, e, assim aprendemos, com o passar do tempo e muitos beliscões depois, que com o sagrado e as leis, dogmas e normas legalistas da igreja ninguém brinca, é assunto sério que requer todo um ritual de purificação íntimo e individual.
Um dia, a família receberia para almoçar um parente em visita à nossa cidade e o ilustre cidadão deveria ser obsequiado com o melhor que tivéssemos em nosso estoque. Deveria ser a galinha de todo domingo de diversas feituras, mas, ao ser constatado a ausência do galinácio, no referido estoque, e, certificado a presença de um enorme galo no quintal a resolução veio rápido:
- Não se deve servir galo a um visitante, mas, levando-se em conta a celeridade da questão, vamos ter que servi-lo.
- Apoiado, exclamou outro do conselho familiar.
Assim, o galo foi para a panela e para evitar qualquer saliência de menino, chamaram-nos a todos e anunciaram que no lugar da galinha seria servido o galo, mas, que tal fato não deveria ser comentado em hipótese algum. Acordados, adultos e crianças, esperaram a hora do início do almoço.
Eis que o convidado chegara e logo após pendurar seu paletó no porta casaco, sentado confortavelmente no sofá, entabulara conversa com meu pai e mãe, avó, tias e outros que por lá estavam. Como estão todos? E a fulana e sicrano, e, o filhos. É verdade issso, aquilo também? O trabalho é promissor? Enfim, todas as perguntas pertinentes à uma atualização de dados familiar. Depois, de muita conversação e oitivas, anuncia-se o almoço. O olhar dos mais velhos a vigiar qualquer má intenção de qualquer dos pequerruchos.
- Vamos ao almoço. Não sei se é de seu agrado...
- Isto é um banquete, merecido dos deuses do olimpo, disse ele empolgando as mulheres cozinheiras.
- Obrigada, uma delas respondera.
Todos sentados, em seu devidos lugares, numa mesa para vinte e seis lugares, cabendo doze de um lado e doze do outro, mais duas cabeceiras ocupadas pelos mais velhos da casa.
- Vamos agradecer o alimento. Mamãe, a senhora pode orar em agradecimento? perguntou meu pai à sua mãe, para angustia da criançada.
- Claro , meu Filho, e, logo começou agradecendo a presença do convidado, sua vida, de sua família, da sua parentela e citando o nome de todos os que ela ia se lembrando, e, enquanto isso a criançada a ver navios, ansiosos para comer.
Enfim, depois de um tempo, terminada a oração, um dos pequenos grita de lá:
- Vó, por favor, passa esse galo-galinha?
Haja beliscão.
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