sexta-feira, 3 de agosto de 2012
A vida da estrada.
À frente da cidade, bem no beiradão de entrada, o flutuante balançava à mercê das ondas que se originavam lá no meio do rio. A correnteza, perigosa, aumentara seu ritmo, o que era possível observar-se pela velocidade dos troncos, das canaranas, às vezes até corpos de animais arrastados e mortos afogados no furor das águas. O céu cinza escuro espelhava a força da tempestade que se aproximava. Lá longe, no meio do rio, uma pequena canoa deslizava velozmente tentando se acercar de uma das margens. O caboclo com sua habilidade ganha na experiência de outras intempéries, remava com calma, agora mesmo pondo o remo bem encostado à proa, à boreste, saindo e ficando paralelo às grandes ondas e imediatamente invertendo o movimento para então ficar perpendicular à elas. De qualquer maneira, lentamente se aproximava da margem. Quem pudesse vê-lo da margem veria a canoa subindo e descendo na variação das ondas. Viera à vila para vender e comprar, repondo suas necessidades familiares.
Outro caboclo andava na calçada da grande orla da capital. Olhava para cima, não para ver a lua, um pássaro, uma copa de árvore, uma caça, uma trilha, um animal qualquer cruzando seu caminho, mas, simplesmente, os altos prédios da cidade. Pareciam imensas árvores de pedra. O contraste do paisagismo o deixava medroso. Um carro passara e jogara um jorro de água lamacenta da poça à beira da calçada. Molhara-o todo. Indignado continuou andando, tentando achar um lugar onde pudesse tirar a roupa e se limpar. Se fosse no interior já teria resolvido o problema. Pararia em um riacho qualquer e tomaria um bom banho frio e lavaria a roupa suja.
- Não se mexa e ponha as mãos na cabeça, era um policial quem comandara.
- Rápido, gritara outro e só então viu que os dois mantinham armas apontadas para ele. Pensou em correr como um dos animais da floresta que ele caçava, mas, também sabia que não adiantaria e seria pura sorte se escapasse, cedo ou tarde seria preso. Sentiu medo e quis estar no lugar que mais conhecia, e, agora tinha certeza amava, que era a floresta. Aqui nunca mais queria voltar.
A voz áspera e mandona do guarda trouxera-o para a realidade.
Anos mais tarde o velho caboclo, sentado em um banquinho à beira do barranco, feito por ele mesmo, olhava o vermelhão no rio que vinha desde a curva do rio, produzido pelos raios solares do pôr-do-sol. A paisagem era linda. A tranqüilidade fora quebrada pela algazarra produzida por um bando de periquitos que por ali passavam. Uma garça, cheia de pose, em cima de um galho de árvore, descia o rio calmo àquela hora. O silêncio era quebrado somente pelo ruído das águas, dos pássaros e muito longe o troar de trovões. O velho levantou-se, olhou mais uma vez o rio e virando de costas endereçou-se para a casinha de madeira que fizera, juntamente com amigos, há muito tempo atrás. Uma mulher esperava-o no solar da porta. Um vento frio, vindo do meio do rio, o fizera, instintivamente a apressar o passo para o interior da casa.
Amanhã tudo de novo, mas, é melhor aqui que qualquer outro lugar, pensara o velho, pois, os perigos daqui são menores e a gente pode ser a gente mesmo.
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