sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A correnteza.

O ar frio da madrugada batendo diretamente em nossos rostos, vindo do meio do rio, gelava-nos a alma. Apressávamos os passos no afã de esquentar os corpos. Íamos na direção do cais do porto para embarcarmos no batelão do leite. Esse barco saia todos os dias do porto de Manaus em direção à Vila do Careiro e parava em todos os flutuantes, no caminho até lá, e, na vinda até cá, que o chamassem acenando uma toalha branca, logo o comandante endereçava a proa do barco na direção do chamado para o resgate daquelas necessidades. Mesmo com as sanefas abaixadas, protegendo a todos do vento direto que teimava entrar pela proa, o frio era intenso. O cheiro do motor em funcionamento, talvez do diesel, misturado com o tal vento do meio do rio nos dava a impressão de um quê desconhecido. Às vezes, uma chuva fina caia impiedosa, batendo em nossos rostos, em pingos cortantes como chicotes, e, no escuro da madrugada só fazíamos nos agasalhar mais perto uns dos outros. Não sei o quão forte é o som do Minuano, lá longe, na verticalidade do país, bem ao sul, mas, o vento fazendo as lonas gemerem, e o som do vento ao passar pelas cordas e mastros, o som do casco subindo e descendo entregue aos formatos das águas, formado por ondas altas, me fazia fazer preces à Deus, pedindo que logo chegássemos ao cais, acolhedor, sonho de regresso de todo marujo. A nesga de céu que víamos, eu e meu irmão, por entre as lonas esvoaçantes, era escuro e numa constância inquietante clareado pela luz intensa dos raios caindo, alguns lá longe e outros mais perto de nosso barco. A imensidão do rio Amazonas reclamando, através de suas enormes ondas dava a sensação de estarmos dentro de uma casca de noz, erma, solta, escrava da natureza rude.
Os meninos da Amazônia aprendem desde cedo a respeitar essas forças desconhecidas e fortes do grande rio. Aqui bem calmo, ali um turbilhão, resultado de tanta força, tanto vento, tanto correr, tanto quebrar a tudo que encontre, inclusive as barrancas que caem, tombadas ante a força da correnteza.
Sentado num banquinho, na beira do barranco, via o por sol, calmo, lento, vermelho brilhando na superfície tranqüila do rio, dando-me uma sensação de paz. Lá no meio do rio, aproveitando a correnteza mais forte, um grupamento de canaranas e um pedaço de árvore, no talvegue, boiavam e rapidamente desciam o rio, um bando de papagaios e periquitos numa gritaria infernal passavam por cima, voando não tão alto. Quando em vez o dorso de um boto ou mais cortava as águas, quebrando a monotonia da cena.
Em ambas as cenas, pensei no quanto Deus fez tudo perfeito, um pedaço do Éden, reflexos do anseio de eternidade.

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