sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Éden.

O casarão, enorme, largo, ocupava quase toda a frente do terreno anterior e posteriormente, na mesma largura, o quintal, plano, terminando na mangueira que em sua época nos enchia de mangas, doces e saborosas. Na entrada uma escada central levava ao primeiro pátio. Uma goiabeira recepcionava. Na verdade eram duas, uma de cada lado da escada. Quando "carregadas" exibiam suas frutas, deliciosas, cobiçadas pelos transeuntes, que paravam, olhavam, desejavam, mas, seguiam o caminho com olhares traseiros. Desse patamar podia-se chegar a um outro, mais alto, ladeado por um pátio, grande, quase na extensão da casa e cuja altura correspondia ao "pé direito"dos andares. Esse "pé direito" era muito usado à época. Passamos, eu e minha família parte de nossa vida ali. A rua sempre muito movimentada, à época, sem carros, pouquíssimos ônibus e muitas carroças e bondes, nos dava certa segurança e era motivo de alegria, pois, por ali passava muitos catadores de lixo, e, nós, crianças, quando olhávamos os vestidos das velhas entrando entre as bochechas de seus glúteos, ríamos à beça: - Rapaz, olha aquela ali... Era uma com o vestido marcando excessivamente sua forma, e, ríamos daquela situação, não sei até hoje porque, mas, ríamos, eu e meu irmão mais velho. O dia era de brincadeiras. No quintal andávamos de bicicleta, brincávamos de manja-pega, de bolinha de gude, de esconde-esconde, de guerra, comíamos mangas, quando em vez, mamãe gritava que o lanche estava servido, depois a hora do almoço, e, brincadeiras de novo numa rotina incrivelmente feliz. Quando o sol começava a declinar e meu pai, já em casa, nos chamava, diariamente para o culto doméstico, uma reunião familiar que me enche de saudades daquela comunhão. Tentei dar continuidade, depois que casei, mas, o dinamismo da vida, as mudanças nos pensamentos e comportamentos dos filhos, impediram a maioria dessas reuniões, que acabaram por sucumbir à experiência. Depois dessa reunião, o jantar delicioso que mamãe fazia, acompanhado de sucos de frutas da estação, e, produto de suas mãos mágicas. O "picadinho", carne moída, se transformava em bolinhos de carne, acompanhados de molho vermelho, ou, o pirarucu, desfiado ou à milaneza, o guaraná gelado, sucos, água e sonhos de eternidade. Antes do jantar, à tardinha, quem olhasse, do pátio da frente da casa para o horizonte, na horizontalidade da cidade de então, poderia deslumbrar, em noites de lua cheia o por do sol mais lindo que já vi e um "nascer" da lua mais incrivelmente belo, essa transição entre o vermelho do por do sol e o amarelo da lua aparecendo deslumbrando-nos, nos enchendo de felicidade, uma portinha que nos deixava quase ver um Éden, perdido à tempos, dando-nos uma idéia de como seria estar no Éden. Lá longe o Rio Negro, negro como sempre, refletia as luzes de um de outro, tendo hora que ora era vermelho do sol poente, ora amarelo da lua nascente. Um barco solitário passava lá longe, no meio do rio, em busca de seu destino. Um laivo, quase borrão, em meio à paisagem deslumbrante. Nessa casa, cheia de espaços, nem tudo era luz. Ao anoitecer, quando a energia "ia embora", as sombras do lusco-fusco, dançantes nas paredes e chão da casa, eram assustadoras e produziam em minha mente de criança uma espécie de insegurança, um medo inexplicável de ser só, de sentir-si só, e, então, eu não gostava quando a noite vinha e a energia, força da casa, também não. Às vezes as sombras assumiam formas de seres viventes que de tão maus e assustadores me faziam gritar, apavorado e meus pais corriam para meu quarto a me socorrer, e, ficavam ali, do meu lado, até eu adormecer, certo da segurança e conforto deles ali comigo, com a certeza que quaisquer monstros seriam rechaçados porque não tinham lugar entre nós e eu dormia tranquilo. De manhã acordava cedo e pronto para as brincadeiras do dia. De noite as sombras, metáfora da vida em si, ensinando que nem tudo é paz e luz, e, que em algum lugar da existência o mal, latente, quieto, se deixado à vontade assume formas assustadoras.

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