quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
A fluidez do charuto e da vida.
Boa Vista. O céu impecável. As estrelas brilhando, cada uma mais que a outra para si mostrarem, aparecer mais que as outras, o que dava uma visão especial aos espectadores. Mesmo para um amador, os desenhos das constelações apareciam mais nitidamente, e, naturalmente, refletia, e fazia refletir o sentimento da grandiosidade da criação. A graça com que os astros arrumaram-se era de causar muita admiração. Eu, como um desses amadores, conseguia distinguir muito pouco das formações.
Deitado na rede via o cruzeiro do sul, as três Marias, algo parecido com a uma formação que eu sabia quem era mais não sabia o nome e depois de um tempo resolvi simplesmente absorver o quadro mágico do céu estrelado.
Meu filho, Alexandre Filho, também absorvia este momento mágico, e, através das espirais da fumaça do seu charuto, deixava transparecer a imensa satisfação de simplesmente estar ali. Realmente o cenário é de difícil descrição. Não há em que pensar a não ser no quadro logo ali em sua frente, para quem está deitado como eu.
Os dois cachorros, um bulldog inglês e um americam bull, um branco e o outro preto, entendendo nosso momento introspectivo, aquietaram-se, deitados à volta das redes, como fossem partícipes da admiração que o quadro exigia. Lá longe o uivo de um pastor alemão, alto, emprestava à cena um quê de ancestralidade, remontando à uma época bravia, de colonização, longínqua. A lua, toda exibida prateava a cidade, e, tenho certeza, mais o nosso pátio, pois, nenhum ponto do quintal até a entrada da casa estava encoberto de seus raios prateados.
Os charutos, cubanos legítimos, pareciam mais ativos e alegres de estarem contribuindo com nosso prazer, estavam na metade e os assuntos, da vida e de projetos, ainda nem pensavam em dar-se por encerrado.
- Alexandre, amanhã é um porvir, mas, marcado por nossos passos de agora. O tempo, essa marca mensurável, existente apenas humanamente falando, para nós os poetas e artistas que teimam em pensar realmente não existe. É-nos indiferente...; assim a noite avançava madrugada a dentro.
Lá no céu a lua. Aqui o calor prateado do amor. Charutos e conversas. Sonhos a vir. Devaneios das almas. Solidificação de sentimentos. Deus abençoando a cena. Passado, presente e futuro. O bulldog, prognata, com os olhos sonolentos, talvez, desinteressado pela conversa, olhava sua silhueta refletida na enorme parede de vidro que separa a varanda da sala de visitas, deixando o tempo passar.
Agora, os charutos quase mortos, nos volviam à realidade. O sono lentamente tomando conta da cena fazendo a conversa ficar mais espaçada, o corpo a pedir descanso, nos lembrava que a mágica do momento terminara e era hora de ir...
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