quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida abundante.

A chuva média, nem fina nem grossa, cai persistente sobre Boa Vista. O entardecer fica tristonho. O valente bulldog inglês, sempre ativo e atento, junto com o american bully seu novo companheiro de alojamento, recolheu-se ao interior do canil. Daqui da varanda posso ver seus olhinhos à procura de algo que o tire da melancolia. O cheiro de terra molhada chega fácil às nossas narinas reportando à lembrança de outras épocas. O enterro saíra impecavelmente às quatro, dezesseis horas. Passara a noite do velório chorando o fato e o dia chuvoso. Na infância distante dificilmente entenderia o porque de tudo aquilo. Hoje a mesma coisa. Não entendo nada. Minha avó, que eu tanto amava, morrera ao amanhecer daquele dia e a chuva que caía persistira o dia inteiro, incrustando em minha memória o cheiro da terra molhada, vindo do oitão, o das flores branquinhas que colocaram nas mãos bondosas de minha avó, o olhar melancólico do Ferrabraz, e, o cochicho das pessoas falando baixinho como para não acordar a morta que indiferente a tudo, placidamente descansava. - Tudo na vida obedece a um sistema. A gente nasce, cresce, e, morre. Sua avó morreu, dizia-me um senhor que não me lembro e seu dizer não dizia absolutamente nada. O Ferrabraz, o cachorro de minha avó, descansara a cabeça sobre as patas dianteiras, cruzadas e ficara na posição por todo tempo. Nem as andanças dos parentes e vizinhos, amigos, mexiam com o firme propósito do velho Ferra de ficar velando sua dona. Seus olhos perscrutavam o interior da sala, talvez, procurando algum movimento no corpo inerte de sua dona. Segue o féretro e concluído o enterro: - Cadê o Ferra? Alguém perguntara. Procura-se e de resposta só o silêncio. Nunca mais se achou o fiel escudeiro de minha avó. Nunca se soube seu paradeiro. Olho novamente para o canil e lá está o bulldog na mesma posição, pacientemente esperando a chuva passar para a alegria da continuidade da vida retornar e por um breve momento de tempo voltar a ser feliz, como eu também.

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